A liturgia tem de poder falar-te
O Papa recordou uma reflexão do então cardeal Giovanni Battista Montini, futuro são Paulo VI: a liturgia exprime tanto o divino como o humano. É uma linguagem mediante a qual Deus nos ensina e nós entramos em diálogo com Ele.
Por isso, a liturgia também cumpre uma função formativa. Deve permitir que a fé e a oração possam expressar-se de uma maneira compreensível.
Se as pessoas não entendem os ritos e as orações, torna-se mais difícil que participem verdadeiramente na celebração.
A reforma procurou precisamente que a riqueza dos textos bíblicos e das orações estivesse mais ao alcance de todos. Também pretendeu que a estrutura da celebração fosse mais clara.
Na missa não estamos a olhar de fora
A constituição Sacrosanctum Concilium expressa uma preocupação muito concreta: que os fiéis não assistam à liturgia “como estranhos ou espectadores mudos”.
Participar não significa simplesmente estar dentro de um templo ou olhar o que faz o sacerdote.
Significa compreender os ritos e as orações, deixar-se formar pela Palavra de Deus, alimentar-se do corpo do Senhor, dar graças e aprender a oferecer a própria vida.
A liturgia torna presente a obra da salvação e permite-nos entrar numa relação verdadeira com Deus. Por isso, os gestos e as palavras da celebração têm importância.
Não estamos perante um espetáculo, mas dentro de uma celebração que também nos envolve.
Por que era necessária uma reforma?
A reforma litúrgica colocou no centro aquilo que constitui o coração da experiência da Igreja.
O Papa apresentou a liturgia como “a fonte primária daquele intercâmbio divino em que se nos comunica a vida de Deus”.
A partir desta convicção surgiu a necessidade de facilitar aos fiéis o acesso à riqueza dos textos bíblicos e das orações. Também se procurou que a ordem da celebração fosse mais clara que a estabelecida nos livros litúrgicos utilizados até esse momento.
O objetivo era ajudar o povo cristão a compreender melhor o sentido do que celebra e a participar de uma maneira plena, ativa e comunitária.
Mudar a liturgia significa romper com a tradição?
Não. O Papa explicou que a liturgia é uma realidade viva e que, ao longo dos séculos, sempre experimentou desenvolvimentos e mudanças.
A própria constituição conciliar distingue entre uma parte imutável, por ser de instituição divina, e outras partes que podem mudar.
Estas últimas podem necessitar de uma revisão quando já não expressam adequadamente a natureza da liturgia ou deixaram de ser apropriadas.
O objetivo não era abandonar a tradição, mas fazer com que a sua riqueza pudesse ser compreendida e vivida melhor.
A reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II encontra-se, portanto, dentro da tradição viva da Igreja.
A reforma não apareceu de repente
O desejo de uma reforma geral da liturgia não surgiu de maneira improvisada.
O Papa recordou que os pontífices da primeira metade do século XX já tinham promovido diferentes mudanças. Entre elas encontravam-se intervenções sobre os ritos da Semana Santa e uma simplificação das normas do Breviário e do Missal.
A preocupação por evitar que os fiéis fossem simples espectadores também tinha aparecido antes do Concílio Vaticano II.
A reforma conciliar foi, portanto, parte de um caminho que já se estava a percorrer dentro da Igreja.
Participar ativamente não significa inventar
A participação ativa não converte a liturgia em algo que cada pessoa, sacerdote ou comunidade possa modificar segundo as suas preferências.
O Papa advertiu sobre os abusos que se produziram em alguns setores da Igreja depois do Concílio e que ainda podem produzir-se quando se exageram ou se interpretam mal os princípios da reforma.
As celebrações litúrgicas não são ações privadas. São celebrações da Igreja e pertencem a todo o seu corpo.
A liturgia manifesta a unidade do povo santo reunido e organizado sob a orientação dos seus pastores.
Simplicidade não significa superficialidade
Os bispos e sacerdotes têm a responsabilidade de custodiar e promover uma liturgia fiel às suas normas e caracterizada por uma “nobre simplicidade”.
A simplicidade da liturgia não procura esvaziá-la de significado. Procura permitir que aquilo que celebramos se manifeste com clareza, beleza e profundidade.
Quando se vive desta maneira, a liturgia também se converte num instrumento fundamental de evangelização.
Através dela recebemos a graça, aprendemos a oferecer a nossa própria vida e crescemos na unidade com Deus e com os outros.
As saudações finais: uma fé que se vive cada dia
Nas saudações aos peregrinos de distintas línguas, o Papa retomou várias ideias relacionadas com a catequese.
Convidou a participar ativamente na liturgia, a abrir o coração e a inteligência à presença viva de Cristo, a procurar Deus com perseverança e a viver a fé de maneira coerente.
Também dirigiu mensagens particulares a diferentes grupos. Recordou as pessoas idosas e quem cuida delas, e falou da proteção da vida humana, do cuidado do matrimónio e da família, da educação de crianças e jovens e do compromisso com a justiça e a fraternidade.
Aos jovens que tinham recebido a Confirmação recordou-lhes que o Espírito Santo “não é um tesouro que deva permanecer escondido”, mas uma luz que devem fazer brilhar cada dia.
Santa Mónica e santo Agostinho: procurar a verdade juntos
Ao dirigir-se aos jovens, aos doentes e aos recém-casados, o Papa recordou as próximas celebrações litúrgicas de santa Mónica e santo Agostinho.
Apresentou-os como dois grandes santos unidos na terra pelos seus vínculos familiares e, no céu, por um mesmo destino de glória.
O seu exemplo, explicou, pode despertar em cada pessoa uma procura sincera e apaixonada da verdade do Evangelho.
Mas essa procura não termina quando descobrimos a verdade. O Papa também convidou a testemunhá-la com alegria na vida quotidiana.
Dito de maneira descomplicada: a fé não é um tesouro para esconder nem uma verdade que se guarda somente para nós mesmos. É uma luz que deve refletir-se na nossa forma de viver.

